O pai do ecstasy

“Sasha sabe que está morrendo, mas isso não está incomodado com isso. Ele não sabe que ele tem câncer de fígado, e não há nenhuma necessidade de que ele saiba, já que isso não traria nada útil a ele. Afinal, como ele disse: ‘Nós todos temos que morrer de alguma coisa!’, escreveu ontem a americana Ann, mulher de Alexander Shulgin, considerado o “pai do ecstasy”. O bioquímico, que já criou mais de 100 drogas em seu laboratório na Califórnia, foi o primeiro a divulgar suas experiências com a pílula que ficou famosa nas festas rave.

Entrevistei Shulgin em 2002 para o extinto site no. e a íntegra do bate papo você lê aqui:

 

Alucinações de proveta

Por Roberta Salomone

Quem vê cara, não vê profissão. Apesar da imagem de bom velhinho, o bioquímico Alexander Shulgin já criou mais de 100 drogas no seu laboratório em Laffayete, Califórnia. Aos 76 anos, ele é um pioneiro na pesquisa de compostos psicodélicos e já foi chamado pelo guru do LSD Timothy Leary de “um dos cientistas mais importantes do século 20”. É conhecido entre estudiosos do assunto como o “pai do ecstasy”. Não por ter sido o primeiro a fabricar a pílula, hoje tão popular entre jovens. E sim porque foi a primeira pessoa no mundo a divulgar suas experiências com a droga, ainda nos anos quando trabalhava como marinheiro num comboio destróier no Atlântico 70.

Apesar da guerra oficial contra as drogas, Shulgin conseguiu escapar da repressão governamental graças a uma licença especial da DEA (Drug Enforcement Agency) que lhe permite analisar drogas para testemunhar em processos de tráfico. Desde os anos 60, ele têm se dividido entre consultorias para processos e laboratórios farmacêuticos e a sua pesquisa.  Além de “Pihkal: A chemical love story” e “Tihkal: The continuation”, livros que fornecem receitas para todos os tipos de drogas imagináveis, ele também escreveu “Controlled substances: A chemical and legal guide to federal drugs”, um popular livro de consulta entre agentes envolvidos no combate a droga nos EUA. “Minha pesquisa esteve disponível para o governo, assim como para todos os outros”, disse ele ao jornal americano “Los Angeles Times”.

O drug designer também faz parte da Alchemind Society, um grupo internacional que se dedica a a promover a “liberdade de pensamento e dos indivíduos escolherem estar em variados estados de consciência”. Sua mulher Ann, de 70 anos, é seu braço direito nas experiências mais ousadas. “Quando ela recebeu a notícia de que o ecstasy tinha sido proibido, ela começou a chorar”, lembra Shulgin, que é contra o uso da pílula em festas rave. “Hoje, posso estimar que pelo menos 50% das drogas vendidas e consumidas nas raves não são MDMA (nome científico do ecstasy) na verdade. São substâncias como DMX e efedrina, que podem até levar a morte”.

Quando o senhor iniciou a sua experiência com as drogas?

Alexander Shulgin – Meu interesse pela relação entre mente e drogas psicotrópicas aconteceu pela primeira vez durante a Segunda Guerra, quando trabalhava como marinheiro num comboio destróier no Atlântico Norte. Sofri um acidente, feri o meu polegar esquerdo e precisei tomar injeções de morfina para controlar a dor antes de chegar em terra. Então, de tantas em tantas horas buscava alívio na morfina. Essa foi então a primeira droga da minha vida. Quando chegamos ao porto de Liverpool, toda a tripulação resolveu se reunir num bar e beber. O álcool foi a segunda droga. A primeira experiência com uma droga psicodélica aconteceu em 1960, quando tomei 350 miligramas de sulfato de mescalina. Foi um dia tão mágico para mim que jamais esquecerei. Desde então, comecei a me dedicar ao assunto. Tenho doutorado em psiquiatria e farmacologia, sou PhD em bioquímica e já criei mais de uma centena de compostos psicodélicos em laboratório.

Quando o senhor começou a estudar sobre o ecstasy?

A. S. – Nos anos 70. Um amigo meu me falou sobre uma pílula que se chamava MDMA e resolvi experimentar. Comecei a tomar uma pequena quantidade e a cada três dias, dobrava a dosagem. Tive uma surpresa: as propriedades da droga foram estimulantes e não psicodélicas como pensava.

Quais são os principais efeitos dessa droga?

A. S. – O MDMA tem uma propriedade mágica. Os efeitos são notados na primeira meia hora e se desenvolvem ainda mais nos outros trinta minutos. É como se as barreiras invisíveis que separam você do mundo pudessem ser removidas e possibilitassem a integração com outras pessoas de maneira verdadeira e honesta. Não há qualquer traço de amnésia, mas foram comprovados dois tipos de efeitos colaterais. Um é o bruxismo (ação de ranger os dentes durante o sono) e o outro são as pupilas dilatadas.

E quais são as propriedades terapêuticas?

A. S. – O uso médico mais frequente do MDMA é na área da psicoterapia. Como disse anteriormente, essa droga tem a propriedade de destruir a barreira invisível que separa as pessoas do mundo. Na psicoterapia, existe uma certa dificuldade em fazer o paciente lembrar de situações passadas e depois, articular essas memórias escondidas, raivas e imagens negativas sobre si mesmo. Normalmente, o terapeuta precisa de seis meses de sessões semanais de 50 minutos para isso. Com o uso do MDMA, esse tempo pode ser reduzido de seis meses para apenas um longo dia.

É verdade que o senhor é chamado de pai do ecstasy?

A. S. – Sim, esse termo é muito usado quando as pessoas querem se referir a mim. Mas eu com certeza não sou o pai, já que a substância não foi criada por mim. O MDMA foi patenteado pela Merck alemã antes da Primeira Guerra. Alguns estudos com animais e MDMA foram conduzidos na Universidade de Michingan, na década de 50, e publicados anos mais tarde. O termo “pai” é uma consequência de ter sido a primeira pessoa a ter revelado minha experiência com a droga.

Como o senhor recebeu a notícia de que o MDMA tinha se tornado uma substância ilegal?

A. S. – Com muita tristeza. De repente, uma majestosa pesquisa foi desconsiderada na comunidade médica. Mas eu já sabia que isso seria inevitável com aumento da popularidade do ecstasy entre os jovens. Quando a minha mulher, Ann, recebeu a notícia por telefone, ela chegou a chorar.

Por que o senhor não gosta de que usem a palavra ecstasy no lugar de MDMA?

A. S. – Eu me sinto bastante desconfortável no uso dessa palavra porque ela não traduz o que essa droga é. Anos atrás, quando o MDMA começou a aparecer nas ruas, o nome “empatia” era usado para defini-la. Mas com o aumento da popularidade da cena rave, o termo “ecstasy” foi adotado e pegou. Na minha opinião, foi aí que o MDMA passou a ser desacreditado. É bom que fique claro que as mortes que aconteceram recentemente em Chicago em raves, foram causadas pelo uso da droga que é vendida como ecstasy. Esta pode, sim, causar overdose.

O senhor é contra o uso de ecstasy em raves?

A. S. – Sim. Hoje, eu posso estimar que pelo menos 50% das drogas vendidas e consumidas como ecstasy nas raves não são MDMA na verdade. São substâncias como DXM ou efedrina. Além disso, o uso de drogas ilegais e desconhecidas pode levar a morte.

Qual é a sua opinião sobre a legalização das drogas?

A. S. – É claro que têm que haver leis que proíbam motoristas de dirigir sob efeito de drogas e álcool. Também temos que fornecer conhecimento sobre o assunto a todas as pessoas. Mas acho que o uso de drogas em experiências médicas e espirituais nada tem a ver com lei e polícia. Todo esse dinheiro que vem sendo destinado a construção de presídios deveria ser investido em clínicas de reabilitação e cursos sobre drogas. Educação pode ajudar os jovens. Prisões, não.

É verdade que algumas das drogas que o senhor inventou escaparam para as ruas de algumas cidade americanas, como São Francisco?

A. S. – Falar que alguma coisa escapou, soa como se acontecesse secretamente e de repente se tornasse público. Eu sempre tornei as drogas que inventei conhecidas, publicando tudo sobre elas. Então, seria até provável que algumas delas saíssem dos laboratórios e chegassem às ruas. Qualquer pessoa com noções em química e um pouco de dinheiro, pode conseguir informações sobre drogas numa biblioteca e depois, fazê-las. No caso de São Francisco, aconteceu durante o “Verão do amor”, na metade dos anos 60. Uma droga, chamada STP, apareceu nas ruas e causou muitas overdoses. Meses depois, fui descobrir que eu tinha inventado essa droga alguns anos antes e a batizado de DOM.

Em que o senhor está trabalhando no momento?

A. S. – Numa pesquisa sobre o cactos. Estou estudando a planta que já foi o símbolo de uma pequena tribo da Bolívia e usada num culto secreto em Montana. Quero aprender tudo sobre cactos, comê-los, sintetizar os seus componentes e anotar tudo isso para quem sabe, virar um livro.

 

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