Encontro com Daminhão Experiença

No ano 2000, ainda reporter do já extinto site no., encontrei o cantor Daminhão Experiença, que é considerado verdadeira lenda da música clássica brasileira. Na época, o baiano era visto perambulando pelas ruas de Ipanema, onde conversei com ele. O texto, na íntegra, segue abaixo.

 

Viagem ao Planeta Lamma

Lenda da música experimental brasileira, Daminhão Experiença gravou, por conta própria, pouco mais de uma dezena de discos nos anos 70 e 80. Hoje, esses álbuns são considerados itens de colecionador e em alguns sebos de São Paulo e Rio de Janeiro podem chegar a valer até R$ 100. Enquanto isso, o cantor de 68 anos que muitos juravam já ter morrido, passa os dias perambulando pelas ruas de Ipanema (bairro da Zona Sul do Rio), onde mora. Com a aparência de um mendigo e os mesmos dreadlocks de décadas atrás, Daminhão ainda afirma, com toda veemência, que veio do Lamma, um planeta que ele mesmo inventou. Mas na hora de falar do passado, reluta com todas as forças. “Eu não gosto de dar entrevistas”, diz, irritado.

Ex-operador de radar da Marinha, Damião Ferreira da Cruz – seu nome de batismo – nasceu no interior da Bahia e caiu na vida, como ele mesmo diz, aos oito anos. Foi expulso de casa e resolver ir para o Rio, cidade onde anos mais tarde descobriu a sua paixão pela música. Foi ele que, sozinho, gravou, prensou, embalou e vendeu todos os seus discos. As canções, de títulos simples como “Pato”, “Fome” , “Bar” , “Luz”, “Gás” e “Água”, jamais tocaram nas rádios. E dificilmente tocariam. Quando se ouve o trabalho de Daminhão, nota-se um ar de total improvisação. Dos instrumentos tocados – guitarras com apenas uma ou duas cordas, por exemplo – saem sons distorcidos, algumas vezes acompanhados de gritos, outras de frases engraçadíssimas. “Eu sou rastafari lá do sertão”, se apresenta numa música. “Eu gosto de apanhar de mulher”, canta em outra.

Depois de um longo período afastado dos palcos, Daminhão fez um pequeno show no final do ano passado, no Rio. Convidado pelo fotógrafo e DJ Maurício Valladares, ele chegou ao Ballroom com seu violão – guardado cuidadosamente dentro de um saco de lixo! – debaixo do braço e tocou algumas de suas canções. Na platéia, os cantores Toni Platão e Fausto Fawcett assistiram à performance do maluco beleza, extasiados. “Foi uma apresentação completamente inusitada”, lembra Maurício. “Conheço muita gente que é louca por ele e foi lá só pra conferir e ficar mais perto de um cara do qual pouco se sabe. Ele é um mito”.

O cantor foi localizado por no. em frente a um supermercado próximo à sua casa, em Ipanema. Ali, num raio de um quarteirão, o mito da morte de Daminhão não sobrevive a meia dúzia de conversas de rua. Absolutamente todo mundo naquele pedaço de cidade conhece o Daminhão Experiença. “Aquele coroa que tem cabelo igual ao do Bob Marley? Claro que sei quem é”, disse um funcionário de uma sapataria, apontando para a rua onde o cantor mora. “Conheço Daminhão há 29 anos”, conta Lourival Santos, porteiro de um prédio vizinho ao dele. “Quando ele se mudou pra cá, as pessoas comentavam que ele era muito estranho, hoje já estão acostumadas. Ele é brincalhão, conversa sempre comigo, mas quando está de mau humor fica insuportável”.

E lá vem Daminhão – quer dizer, lá está Daminhão, porque ele quase nunca vem ou vai, está sempre parado, observando, recebendo cumprimentos, conversando fiado. Mas aquele era um dia de mau humor insuportável. Quando o gravador foi ligado, permaneceu por quase dez minutos em silêncio. De repente, desandou a cantarolar uma música com palavras absolutamente indecifráveis. Sim, claro, aquilo só podia ser o tal do lammês, língua que o próprio criou. Ao final, respirou fundo, abriu um sorriso e avisou: “Sou mendigo do Planeta Lamma”. Depois, falou por quase uma hora – sempre reclamando que não gostava de entrevistas – sobre o trabalho, vida e projetos. “Estou doente e cego de um olho”, lamentou, emendando imediatamente numa outra canção que garantia ser inédita.

A seguir, um pouco do papo de rua com Daminhão:

O que você anda fazendo?

Nada. Eu não faço nada.

Mas você gosta de andar por aqui, não é verdade?

Eu ando pelo mundo todo.

E onde fica o Planeta Lamma?

(cantando:) Planeta Lamma é 27 paus debaixo da lama. Não tem fulano, não tem sicrano, todos nós somos do Planeta Lamma. Pode ser barão, pode ser ladrão.

Como surgiu a idéia de criar esse planeta?

Me inspirei em Adolf Hitler, há 60 anos.

Mas você tinha só oito anos…

Eu já gostava muito de Hitler.

Onde você nasceu?

Minha pátria é o universo.

Tudo bem. Mas em que cidade do universo você nasceu?

Nasci numa cidadezinha de nome Portão, no interior da Bahia.

E por que você saiu de lá?

Porque fui expulso de casa. Eu aprontava muito e tomava muita porrada do meu pai.

E o que você fez quando chegou no Rio?

Fiz o que todo o mundo faz pra sobreviver.

Você nunca se casou?

Quem casa é otário. Eu nunca casei porque sou muito apaixonado. As mulheres me dominam demais. E hoje, estou velho, brocha, caído. Eu não quero ninguém porque sei que todos os amores são comprados. Pra ter uma mulher tem que ter dinheiro. Sei muito bem disso. Já tive muitas mulheres da zona quando era cafetão.

Você era cafetão?

Era. Fui sustentado durante muito tempo por mulheres. Nessa época, sempre me metia em confusão. Aí, puxei seis anos de cadeia na Ilha. Depois disso, fiquei mais devagar.

Quantos anos você tinha?

Uns vinte e pouco. Eu era bicho torto, bandido. Jogava bilhar, sinuca, no meio da vagabundagem. Pra melhorar a vida, comecei a tirar onda de cantar, ser músico, ser poeta. Gravei meus discos no estúdio que ainda tenho na Barra (Zona Oeste do Rio) e com o meu dinheiro.

E você não tem vontade de gravar de novo?

Tenho. Até já gravei algumas coisas. Tive algumas propostas para fazer um disco religioso, mas eu não tenho tantas idéias assim pra fazer um disco inteiro falando de Deus. Quero lançar um CD com 64 minutos de música e estou pensando em colocar o título de ‘Meu planeta brazil com Z’. O que você acha?

Acho uma boa idéia. E você sente saudades dessa época em que cantava?

Eu não tenho saudade de nada. Tenho que viver o presente e não o passado. É a mesma coisa que acontece com as mulheres que tive. Sempre que acabava com elas, rasgava todas as fotos pra nunca mais lembrar de nada.

DaminhaoCom Daminhão Experiença: “maluco beleza” da música experimental

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